Pelos sem-abrigo

Entretanto, noutra esfera, assiste-se a esbanjamento do pouco que ainda resta. Os grandes grupos económicos continuam a anunciar, quando não podem mais esconder, as somas astronómicas de avultadas quantias que enchem os bolsos de alguns. Estamos à beira do “salve-se quem puder”, como último acto de desespero de quem adivinha a barca a afundar-se.
Os governos dizem estar preocupados. Ora levantam a voz para tentar animar os desanimados, ora escondem factos e realidades que se conhecidos mais enegrecem o quadro geral. É triste ver que nos momentos cruciais, quando são anunciadas novas falências ou novos despedimentos, venham à luz do dia vozes de quem diz que há muito que se sabia e esperava tal situação. Mas na maioria dos casos ainda há poucos meses se dizia que tudo estava bem, tudo estava sob controlo e não havia nada a temer. De um dia para o outro os jornais anunciam quebras e ruínas que se esconderam mas que afinal já se adivinhavam. Só o povo, a gente simples do povo, do contribuinte que cumpre com os seus deveres de forma assídua, de nada sabia, nem sequer adivinhava. E de um dia para o outro, caiem os que ainda ontem estavam de pé. Cresce a força e a hegemonia do Estado providente e desmoronam-se os sonhos e os projectos das gentes.
O Mensageiro saiu à rua para conhecer esta realidade tão ambígua e desconcertante. E o que vimos e ouvimos deixou-nos desconcertados. A crise está mesmo aí ao nosso lado. Mais, ela está onde menos se pensava e onde menos parecia previsível. Pelo menos para alguns. Para não ferir susceptibilidades nem escandalizar ninguém, não mostramos rostos nem trouxemos a público vidas e nomes. Mas pudemos dizer que a situação é grave. Relatamos, o caso concreto do Centro de Acolhimento de Leiria. Mais que gente que procura uma refeição ou um suporte momentâneo, o Centro de Acolhimento atende histórias e vidas que se desfazem. Se dá algum apoio, é também certo que nestes dias se enche de lágrimas e consternação. São pessoas que tapam o rosto e escondem o seu sofrimento, num semblante cada vez mais angustiante e envergonhado. Pessoas que preferem nem falar do dia de ontem, porque quando o recordam fazem-no como se de um conto de fadas se tratasse. Estão aqui bem perto de nós e a crise atinge-os a eles bem mais do que a alguns senhores que ainda nem se deram conta de que os tempos estão difíceis. Em tempo de crise, uma singela homenagem aos sem abrigo e uma palavra de ânimo para quem anda perdido.
[Edição de 6 de Novembro]
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